A Tátá sempre gostou de objectos de ouro de Toledo e numa das suas visitas pela Mancha, o Bau deu-lhe uma tesourinha que sempre trazia na carteira… e servia para cortar uma linha, um espigão, uma flor, um papel…No dia de Natal de 1972 a família partiu para Lisboa a visitar o mano em Caxias. Embora ainda em período de interrogatório, o dia de Natal dava direito a visita comum, sem vidros de parlatório de permeio, só com a presença de um guarda prisional, e com direito a abraços e beijos… Tudo o que levávamos ficou na portaria para ser inspeccionado e à saída o pequeno tabuleiro de barro com aletria que lhe levara foi-me devolvido por ser um objecto perigoso… poderia quebrar o barro e tentar suicidar-se… argumento que me fez espalhar o doce por todo o átrio da cadeia com o olhar de espanto dos guardas e o receio da família em que ficasse também ali retida… Só passados oito dias foi colocado na cela que dividiu com três companheiros. Na primeira visita que a Tatá e o Bau lhe fizeram (e não era fácil… não vivíamos em Lisboa…) o mano pediu uma tesoura para poder cortar as unhas dos pés… a Tátá não hesitou em deixar ficar na portaria a pequena tesoura que sempre a acompanhava e que deveria recolher no dia seguinte. Na verdade, a tesoura não lhe foi entregue e também ela não a pediu… e assim ficou retida em Caxias… Como foi possível não sei… diz o mano que há segredos que não convém revelar porque nunca se sabe se pode vir a ser necessário voltar a usá-los… O mano saiu de Caxias em Maio de 1973 mas a tesoura ficou na cela entregue a um fiel depositário conhecido (de quem não revelo o nome) porque era muito útil aos restantes residentes… Os presos de Caxias depois de julgados ou eram libertados com penas suspensas como aconteceu ao mano ou transferidos para o forte de Peniche … E foi assim que a tesourinha da Tátá viajou clandestina também com métodos que não podem ser revelados… (há sempre um tacão de um sapato que pode ser oco…) até Peniche onde viveu e foi de grande utilidade na cela que habitou até ao dia 25 de Abril de 1974… Como sabem, o mano estava de novo em Caxias, foi um dos libertados na madrugada de 27 de Abril depois daquela noite de vigia tão bem relatada neste artigo. A Tátá, o Bau e o mano foram festejar na Graça com um velho companheiro de cela libertado de Peniche, que com pompa e circunstância devolveu à Tátá a tesourinha que viveu na clandestinidade entre Caxias e Peniche nesse período…
Esta é uma pequena história que merece ser contada para festejar mais um aniversário do 25 de Abril de 1974!
VIVA O 25 DE ABRIL!
BEIJO MEU PARA TI!!!
BEIJOS!!!
